Num mundo cada vez mais envolvido na tecnologia, existem gerações que sentem que estão a ficar para trás. A constante renovação digital redefine diariamente a forma como comunicamos, aprendemos e experienciamos o mundo. Acompanhar esse ritmo nem sempre é simples, e a dificuldade aumenta quando essa transformação ocorre após décadas de hábitos consolidados.

Esta realidade manifesta-se também nos espaços culturais; outrora locais de mera contemplação e apreciação de arte e ofício, incorporam nos dias de hoje formas de se adaptarem ao desenvolvimento da tecnologia, dando uma nova vida às obras que apreciamos. No entanto, nem todos os visitantes destes espaços se conformaram com a evolução digital.

Visitantes seniores a utilizar uma ferramenta digital num espaço cultural.

Inclusão digital e participação cultural

Segundo os Censos de 2021, Portugal conta com cerca de 2,5 milhões de habitantes com 65 ou mais anos, representando quase 24% da população residente. Esta população caracteriza-se por frequentemente sentir falta de confiança e receio face ao uso da tecnologia, assim como escassez de representação e a ausência de normas de acessibilidade associadas a este problema. Desta forma, é essencial combater este desafio e garantir que esta faixa etária se sente compreendida e incluída nesta evolução.

Embora inclusão digital seja uma responsabilidade social mais ampla, os espaços culturais têm um papel determinante na promoção de experiências acessíveis e intergeracionais. Para além de permitir uma maior homogeneidade relativa à literacia digital, incluir a população mais velha nos espaços culturais viabiliza a resolução de problemas de carácter social. Este público é frequentemente confrontado com o isolamento social e a redução da sua participação cívica.

Por consequência, a saúde mental e cognitiva desta geração deteriora-se e perde-se a transmissão intergeracional de memória cultural. Assim, os museus e espaços culturais encontram uma oportunidade de dar a conhecer a este público obras de tempos passados com ferramentas do futuro, incentivando a aprendizagem e integração no mundo atual.

É necessário mostrar que a tecnologia pode ser uma aliada e facilitadora na compreensão da cultura e não uma barreira, opinião muitas vezes partilhada por membros desta geração. Ao mesmo tempo, os espaços culturais devem estar preparados e recetivos a realizar alterações que permitam uma maior participação deste mesmo grupo nas experiências que oferece.

Sugestões

Os espaços culturais devem certificar-se que os áudio guias que utilizam contém botões suficientemente grandes, com volume adaptável e uma linguagem simples. No caso de áudio guias digitais, devem ser também incluídos botões grandes, o design da plataforma deve ser linear e universal, com letras de tamanho considerável. Cores de alto contraste também podem ajudar a visualizar as diferentes componentes da plataforma.

Incluir colaboradores do espaço cultural que possam ajudar não só a população mais velha, mas todos os visitantes na utilização dos áudio guias é importante. Não é esperado que os funcionários do espaço acompanhem os seus visitantes durante toda a visita, isso seria complicado de realizar; ensinarem através de um tutorial inicial pode ser suficiente para melhorar e completar toda a experiência.

No caso de museus que incluam atividades imersivas, como o caso de realidade aumentada e virtual, inteligência artificial e projeções interativas e mapeadas, é essencial garantir a proteção dos visitantes. Estabelecer normas de segurança é importante para a saúde dos mesmos e a credibilidade e confiança na entidade.

O futuro cultural é intergeracional

Já há algum tempo que a inovação tecnológica é uma constante presente nas nossas vidas. Apesar de incerta, integra de alguma forma todas as componentes do meio que nos rodeia. Deste modo, é fundamental que a presença do mundo digital não apague a presença daqueles que aqui estão há mais tempo.

Assim, garantir que estes espaços facilitam a esta faixa etária continuar a apreciar arte, ainda que não sendo da mesma forma que antes, é essencial para que exista um maior envolvimento de todos os membros da sociedade. Pode ser difícil, especialmente para este público, assimilar que a mudança é permanente, mas é importante relembrar que a tecnologia não substitui, mas sim potencia.

É a tecnologia que dá uma nova vida às obras que vemos; permite-nos experienciar novas emoções e sensações, e intensifica a relação criada com o trabalho artístico.

A verdadeira modernização dos espaços culturais não se mede apenas pela inovação tecnológica que apresentam, mas pela capacidade de tornarem essa inovação acessível a todos. Incluir todas as gerações não é acompanhar o futuro, é garantir que ninguém fica para trás enquanto o mesmo acontece.